Nossa!
Que pergunta mais “estrambólica”. Não é? É. Mas a idéia é essa mesma.
Fiquei pensando muito na questão das amizades sinceras e nas pessoas com
as quais podemos contar nos momentos mais difíceis das nossas vidas.
Não achei nenhum exemplo melhor do que esse. Vejamos: Quando ficamos
doentes, muitas pessoas nos auxiliam: amigos, vizinhos, parentes,
“aderentes”, conhecidos e até estranhos. Quando precisamos de dinheiro,
sempre tem um parente mais abastado ou um amigo “bonzinho” e generoso
que pode nos socorrer, sem contar que temos a opção mais simplificada de
“socorro” que são os empréstimos, consignados e afins. Quando o assunto
é coração partido, sempre tem um ombro amigo pronto para ouvir as
lamentações e dar aqueles “valiosos” conselhos, sempre com prestimosos
lenços para secar as lágrimas que nesses casos, teimam em cair. Mas e se
você, por qualquer motivo pelo qual não entraremos no mérito, matasse
alguém, com quem poderia contar? Fiquei imaginando aquele primeiro
impacto da notícia. Quantas pessoas seriam capazes de perguntar como
você está mesmo antes de perguntar porque você fez o que fez? Quantas
seriam capazes de pensar na sua inocência mesmo antes de saber os
detalhes do fato? Quantos iriam te acompanhar na delegacia, enfrentar a
mídia, te visitar no presídio por anos a fio? Sem contar que, no início,
quando acontece uma tragédia dessas, muitas pessoas aparecem para
prestar solidariedade, no início, visitam, apóiam, conversam, mas com o
passar dos dias, das semanas e dos meses, tudo vai caindo no
esquecimento. A vida continua, pelo menos para eles. Fiz essa pergunta
para vários colegas, um deles, o *Setúbal, disse que contaria apenas com
três pessoas: seu pai, sua mãe e sua noiva *Adele. Não contente com a
resposta inquiri: Será que sua noiva esperaria durante dez longos anos
por você? Será que ela se satisfaria apenas com as visitas íntimas
regulamentares? Ele titubeou. Balançou a cabeça. Senti que ele ficou com
a “pulga atrás da orelha”. *Janete, outra colega, disse que apenas sua
mãe seria capaz de aguentar um “calvário” desses. Foi categórica ao
afirmar que seu companheiro *Oscar, certamente não iria nem apoiá-la nem
esperá-la. *Marílis, minha amiga, disse que analisaria cuidadosamente a
situação, que antes iria avaliar em que circunstâncias tudo ocorrera,
mas que de antemão adianta: só faria isso pelos filhos. Mais ninguém.
Eu, por minha vez tenho certeza que poderia contar em absoluto com três
pessoas: meu filho mais velho, não que eu não confie nos outros,
simplesmente por uma questão de idade, de maturidade, com meu irmão
caçula, o Lúcio e com o meu marido, que, pelo que conheço, tenho certeza
que, além de me apoiar incondicionalmente, me esperaria nem que eu
passasse mais de vinte anos na prisão. Não vou incluir mus pais porque
eles já estão idosos e como eles têm uma visão diferente da vida, não
sei como encarariam o fato da filha ter “ceifado” uma vida. Tenho
certeza que receberia apoio irrestrito também, surpreendam-se, da minha
sogra. Isso mesmo. Além dela me visitar quantas vezes a distância
permitisse, sei que me sustentaria em orações e me escreveria
incontáveis cartas de próprio punho, como se fazia antigamente, ato que
infelizmente, foi quase suprimido das nossas vidas com o advento do
computador. Na questão dos filhos, tem um outro porém: com o passar dos
anos, cada qual vai buscar seus horizontes, cuidar da mulher, da sua
prole...e pronto! Sei que essa é uma postagem polêmica e bastante
questionável, mas vale como uma reflexão, como um “pit stop” na vida
atribulada que levamos para pensar nas pessoas que nos amam
verdadeiramente. Serve para darmos valor nas suas existências e
principalmente para olharmos a situação por outro prisma: E se alguém
que julgamos amar matasse alguém? Para quem seríamos um porto seguro e
por quanto tempo? Por quem estaríamos dispostos a sacrificar nosso
domingo, nosso lazer, nosso “arzinho refrigerado”, nosso churrasquinho
com amigos para “encarar” uma cadeia fétida para cumprir o ritual da
visita? Entraríamos no presídio de cabeça erguida? Nos sujeitaríamos com
naturalidade às revistas indiscrestas? Faríamos isso por anos e anos
sem reclamar? Sem lamuriar? Seríamos capazes de esperar nosso amor por
10, 15 ou 20 intermináveis anos? Perguntas. Respostas. Dúvidas.
Certezas. Incertezas. Ponto Final.
* Os nomes verdadeiros foram substituídos por fictícios para preservar suas identidades

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