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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Empadinha de Palmito

No carro, eu e meu irmão buscamos nosso "quase" irmão Dimas na rodoviária  e na volta,  paramos na padaria para pegar um pãozinho quentinho para os que estavam em casa. Na casa da nossa mãe já tinha um "montinho" de gente.  Porque estavam lá?? Minha mente não entendia esse ajuntamento. Meu cérebro não processava as informações, meus ouvidos não queriam ouvir a verdade. Meus pensamentos voavam, divagavam. A moça me olhou e perguntou: Quantos pães? Francês? Pedi 20. Pra que tanto? Para alimentar as pessoas que não se reuniam há anos, pensei. Meus olhos atentos procuravam no grande balcão algo específico... Achei! Moça, me dá uma empadinha de palmito. De repente, falei: Desculpe, não vou levar mais. Não comentei o motivo com ela: A empadinha de palmito era para minha mãe, mas como num sopro, lembrei que a minha mãe não estaria em casa pra receber a empadinha, nem naquele dia, nem nunca mais.

Eu não tinha boa aparência.


Eu não tinha boa aparência. Quando eu era mocinha, isso há décadas e décadas atrás, quando comecei minha vida profissional, as coisas eram bem difíceis, pelo menos para mim. Eu ia a pé da casa da minha mãe até o centro, mais ou menos 4 km. Com o dinheiro do transporte, eu comprava um jornal, a Gazeta do Povo. Olhava nos classificados e circulava aqueles anúncios em que eu achava que teria alguma chance: balconista, vendedora, auxiliar administrativo, auxiliar de qualquer coisa e outras que se encaixassem na minha experiência e escolaridade — e olha que eu não tinha nem uma coisa nem outra. Eu já chegava ao local suada e cansada. As candidatas já me humilhavam, mesmo em silêncio. Cabelos sedosos, pele hidratada, unhas feitas e roupas da moda. Inúmeras vezes olhei a fila e pensei: “Aqui pra mim não vai dar”. Na fila, as moças bonitas e mesmo as que não eram “tão bonitas”, mas estavam impecáveis, estavam confiantes na possibilidade de serem escolhidas para a segunda etapa: a tão temida entrevista. Era raro eu chegar à segunda fase. No tal critério “boa aparência”, eu já era eliminada logo de cara. Os recrutadores, na sua maioria, eram educados e gentis. Pegavam o currículo e diziam assim: “Colocou o telefone de contato?” “Sim.” “Então, se você passar para a próxima fase, será comunicada.” Nem sei quantas vezes saí do lugar chorando. Então eu me recompunha e ia para o endereço seguinte. Ia andando, por isso só selecionava vagas no centro, onde eu teria facilidade de locomoção. Outras vezes eu passava na primeira fase e empacava na segunda: eu chorava nas entrevistas. Juro por Deus. Eu cho-ra-va! Tinha medo de não passar e não passava. Falava das minhas dificuldades familiares e financeiras, dos meus problemas pessoais e, aos prantos, dizia que eu precisava muito da vaga. Eu imaginava que o entrevistador ficaria compadecido da minha situação e me contrataria. Não era isso que acontecia...Várias vezes ganhei um copo de água com açúcar e fui despachada, depois de ser consolada com frases motivacionais e outras do tipo: “Quando formos chamar, você será uma das primeiras”. Houve vezes em que ganhei um trocadinho para o ônibus, que eu pegava aos soluços. Se já fosse de tarde, eu voltava para casa; se não, pegava o jornal e ia para a próxima vaga, prometendo a mim mesma que não choraria. Mas eu sempre descumpria a promessa.

Cegueira Temporal


 Com carinho,
Lu de Oliveira 
#cronicas #memorias #vidareal #pessoasfrutas #cegueiratemporal #textosautoral


Da Minha Fruteira Chamada VIDA

Resolvi abrir hoje a minha fruteira.Não aquela da cozinha, com banana e mamão. Mas a outra, a que a gente carrega no peito e que se chama VIDA.Fui tirando de dentro dela umas lembranças, umas pessoas, uns tempos que passaram e eu não vi passar.Separei três. Três frutas, três histórias, três pedaços de mim.Tem a história das pessoas que são frutas e nos alimentam. Tem a história da mocinha que ia a pé atrás de emprego e chorava nas entrevistas. E tem a cegueira do tempo, que quando a gente pisca, já entardeceu. Deixo aqui para vocês, com todo o meu carinho. Que vocês se encontrem um pouquinho em cada uma delas.

Com amor,

Lu de Oliveira


Todas as Capas

 


Todas as Capas

Em dias de chuva, uso capa,

Em dias de sol, também uso capa,

Capas: Tudo hoje parece ter capa.

Vejo pessoas com capas,

Vejo a vida com capas,

As capas, todas as capas...

Elas não deixaram que eu sentisse

A chuva suave e o sol brilhante,

Nem as pessoas como elas são.

Agora, eu também criei minha própria capa.

Já não vejo mais nada, nem ninguém.

E você? Tem sua capa?

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Solidão Aqui Não!

 Solidão Aqui Não


Não me fale em solidão…

Como poderia ser só quem nasce aqui, 

Sabendo ter o maior rio do mundo como quintal?


Não me fale em solidão…

Como poderia ser só, quem ouve dia e noite

A floresta que “grita” com seu silêncio profundo?

 

Não me fale em solidão…

Como aceitar ser só, quem tem milhões de

Pássaros, livres, que insistem em não “calar” seus bicos?


Não me fale em solidão…

Como ser só tendo todos os fantasmas da nossa 

Ancestralidade preenchendo todo e qualquer vão da  finitude?


Não me fale em solidão…

Se você se descobriu do Norte e  sabe o que é ter

Uma Amazônia no peito e um sol brilhante no horizonte.


Não me fale em solidão…

Principalmente se estás no Amapá, porque aqui essa

Palavra simplesmente não resiste, não insiste, não existe.

Das Dores que Só eu Sei

 


                                                                                                                                         * Imagem Internet


Das dores que só eu sei


Tive dias de tempestade

Daqueles que o céu claro fecha em escuridão 

Abria a porta e a tristeza me recebia

Abria a janela e a solidão me dizia: Oi 


Há quem conhecia minha dor 

Ria do meu pranto, me desprezava

Me acusava do que eu não sei

Me jogava no abismo: ali eu ficava: Só e triste


Foram dias de amargura

De um chorar sem fim

De um sentimento de rejeição 

Que marcaram minha alma e abriram chagas profundas 


Mudei minha vida e meu jeito de ser 

Esqueci tudo que aprendi sobre amizade

Refiz conceitos, recriei rótulos 

E me isolei. Me fechei para o mundo 


Hoje sou solitude. Sou profundidade

Sou inacessível. Uma concha fechada

Alguém que espera a cura. 

A esperança. 

O esquecimento.

A Menina Virgem




                                                                                                                                          
A menina ainda era virgem. Ia a pé para o trabalho. Tinha 16 anos. Em outros tempos, nessa idade, as carteiras já eram assinadas e as meninas, quase mulheres, já podiam ter a sua “independência financeira” e os mesmos direitos das mulheres adultas. Tinham ainda o “direito” de serem desrespeitadas por patrões bonzinhos, que além de lhes dar o emprego, sempre queriam dar e receber “algo a mais”. Um dia, a menina foi abordada na rua por um homem de “carrão”. Um Diplomata azul, da marca Chevrolet. Novinho. Carro de luxo dos anos 80. O homem era um senhor bem apessoado aparentando uns 40 anos. Embora educado, sorridente e muito bonito,  para a menina, já era um homem bem “velho”. Ele ia ao lado da menina… O carrão, acompanhando aqueles passos curtos, chamava a atenção de outros homens que talvez, já tivessem visto a menina virgem passar por ali. E lá ia o homem falando pela janela aberta, braço para fora, todo galante e gentil. O homem, depois de muitas perguntas, ofereceu “carona” na saída para a menina. A menina aceitou. Depois, alguém viu a atitude do homem e alertou a menina: Esse homem é muito rico, tem uma loja muito grande de materiais de construção. É casado. Dizem que é gay. Nessa época,  surgiam os primeiros casos de AIDS, e falavam que,  você podia “pegar AIDS” só de encostar na pessoa. A menina virgem “se pelou de medo”.  A menina virgem crescia sem cuidados atentos de mãe e não tinha pai. Quem iria protegê-la se alguma coisa desse errado? E se a situação saísse do controle? Logo a menina imaginou-se presa dentro do carro. O homem “velho”, tentando lhe beijar a boca. Ávido, tentando acariciar seus seios. Querendo o seu tesouro mais valioso. Um pavor se acendeu na menina. Ela ainda era virgem. Ao sair do trabalho, 18h em ponto, a sagrada hora do Angelus, ou a hora da Virgem Maria, o homem estava lá,  e depois de esperar por mais de 40 minutos, sem que seu  “predador” desse sinal de ir embora,  a menina teve uma ideia: Pulou o muro dos fundos. Fugiu como um pequeno bichinho que foge de um malvado caçador. O muro era alto e ela se jogou com tudo! Machucou-se um pouco. Caiu numa capoeira.  Ela era uma menina virgem, quase mulher, mas ainda era uma menina. A menina chegou em casa tarde. Ninguém para perguntar o que aconteceu. Ninguém curioso no motivo do atraso. Como quem conta um conto aumenta um ponto,  o homem mais velho, ludibriado pela menina virgem, caiu em “bocas de Matildes” e  foi motivo de piada por um bom tempo. Embora essa não tenha sido a intenção da menina, talvez o velho “lobo” tenha aprendido uma lição. Ah.. e a menina? A menina, quase mulher, continuou virgem até quando quis., ah… O homem mais velho, ludibriado pela menina virgem, caiu em “bocas de Matilde” e  foi motivo de “piadinhas” por um bom tempo, embora essa não tenha sido a intenção da menina. Talvez o velho “lobo” tenha aprendido uma lição. Ah.. e a menina? A menina quase mulher, continuou virgem até quando quis. Eu sou a menina.
                                                                                                                                          *Imagem Internet

Minhas folhagens.

 



Quem me conhece bem a fundo sabe que sou uma mulher que ama as folhagens, Gosto das flores também, mas me encanta a facilidade para cuidar da maioria das folhagens. Quase que em regra, elas só precisam de boa terra e rega correta. Se você esquecer de molhar um dia, elas não morrem. Faço uma comparação, rasa, admito, com as pessoas. Tem gente que é folhagem. Simples de manter a amizade. Não exige que a gente “pise em ovos” pra falar. Se você não fala hoje, elas não ficam com raiva. Se você esquecer de responder no Whatsapp, ela não vai te cobrar e te bloquear, ou deixar de te convidar para um evento. Amigos “folhagens” também são coloridos, são cheios de vida e trazem tanta beleza quanto as flores. E por falar em flores… Tem amigos que são como flores raras e delicadas. Basta um pouquinho de sol a mais e elas murcham. Se foi muita água, apodrecem, se foi pouca, secam. Assim são as pessoas “flores raras”, ou chamadas também de alecrim dourado. São pessoas de difícil trato. Melindrosas. Cheias de não me toque e uma palavra “mal dada” ou mal entendida por ela, já é motivo para rompimento da amizade. Por muito pouco ela se estressa e “se vira a cara” pra você, já era. Sejamos leves queridos. Daqui nada se leva. Somos todos passageiros. Quando você passa por um momento de grave doença sua ou da família, você começa a refletir na brevidade da vida. No quanto somos fortes e ao mesmo tempo, muito frágeis. A vida é uma centelha que em milésimos de segundo pode se apagar. Estou em uma nova fase da vida: Novo local de trabalho, aprendendo coisas novas e pasmem… Trabalho com um monte de folhagens! Sou a primeira e única mulher a trabalhar no setor, então, tudo para mim e para eles é novo. Eu sou folhagem. Não sou do tipo que requer muitos cuidados e me adapto a qualquer solo. Mas cuidado! Tem folhagens extremamente venenosas se tocadas ou ingeridas. Entendedores entenderão. 03/06/2026