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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Mea Culpa ou O Porquinho que Morreu Sozinho

Moro desde 1999 no Amapá e visito com frequência meus familiares em Curitiba. Quando chego, logo tomo conta da cozinha e, consequentemente, das panelas. Adoro cozinhar para todos. Pra mim, lá ou aqui,os bons momentos devem ser sempre em volta da mesa, com comida saborosa e farta. Em fevereiro de 2016, em mais uma dessas viagens, estava eu preparando um almoço simples, daquelas comidinhas que fazemos com poucos ingredientes e temperos básicos, mas que entre pitadas de amor aqui e pitadas de carinho ali, acabam tendo sabores inesquecíveis: salada de alface com tomate, arroz soltinho, feijão com bastante cebola e alho e bisteca de porco frita. Tudo feito na hora para ser servido bem quentinho. Quase tudo pronto, carne temperada e óleo bem quente. Shiiiiiii.... Primeiro o barulho, depois o cheirinho de carne frita que rapidamente se espalhou pela casa trazendo ela, Luísa, minha sobrinha, então com 5 anos, que veio "atraída" pelo cheiro da fritura e certamente pela fome.

__ Hummm... Que cheirinho bom. O que você está fazendo, tia?

__ A tia está fazendo porquinho fritinho. Quer provar?

__ Ah, eu quero... mas????...Tia, esse porquinho morreu "sozinho", né?

Longa espera seguida de silêncio pra eu ajustar meus pensamentos.

__Hã?

Demorei para entender a pergunta. Quase tomei um susto e pensei: até você? Explico: Tenho vivido experiências com amigas que se tornaram vegetarianas ou veganas, umas por orientação médica, outras por puro modismo e algumas por conscientização mesmo, pois falam que os animaizinhos são mortos com requintes de crueldade, que o ser humano foi, digamos, "desenvolvido" para se alimentar exclusivamente de cereais e vegetais e que os derivados de animais fariam muito mal ao nosso organismo. Na verdade, todas elas falam muitas coisas e eu não consigo guardar tantas informações e talvez nem queira, sequer pesquiso para me aprofundar, porque sou... sou... conscientemente car-ní-vo-ra! Isso mesmo! Sou uma voraz comedora de carnes. Sou daquelas que "devora" bichinhos sem culpa alguma.

Então, voltando à minha amada sobrinha e entendendo a preocupação da mocinha, falei: claro que sim, meu bem! Pode comer tranquila que esse porquinho morreu bemmmmm sozinho. Luísa provou só um pedacinho, porque falei que já ia servir o almoço. E ela soltou um sonoro "Hummm... Que delícia!" A meu pedido, chamou o "povo" com sua voz infantil, porém requerendo urgência:" O almoço está pronto! Vamos, gente, agiliza!" Sentamo-nos à mesa. Silêncio total. Agradecimentos ao Papai do Céu e lá vem a voz de comando:" Atacar!" Luísa, sua irmã Lavínia de 3 anos, vovô, vovó, eu e a mamãe das preciosas almoçamos ao som de risadas, conversas e atualização das novidades, coisa de quem mora longe. Da travessa cheia do porquinho frito só sobrou o fundo vazio. Nunca esqueci do meu diálogo com minha pequena e todas as vezes que vou comer carne de porco, me vem sua vozinha na mente me perguntando: "mas ... esse porquinho morreu 'sozinho', né?" Talvez sinta um pouco de remorso por não ter falado a verdade, mas até hoje não sei se os porquinhos morrem "sozinhos" ou "acompanhados". Sempre dou um sorriso com a lembrança dessa preocupação, agradeço ao Papai do Céu e... atacar....! Bem se vê que minha fome e "bom gosto" superam (talvez) meu bom senso!

 


A Menina dos Temperos



Nas férias, quando visito familiares em Curitiba, faço questão de, sempre que possível, ir para a cozinha preparar as refeições e outros quitutes para a família. Sem pretensões. Puro prazer! É como se, com esse gesto, eu estivesse querendo dizer: "Amo vocês!" Em 2014, consegui passar as festas de fim de ano com a "parentada" e preparei algumas "comidinhas" para a ceia de Natal e chegada do Novo Ano. Na execução dos pratos salgados, tive a preciosa ajuda da Andréia, irmã da minha cunhada Cláudia, acho que ela vem a ser minha concunhada. Deixe-me falar um pouco sobre a Andréia: Ela é uma menina doce, trabalha como secretária em uma escola de inglês, atleta maratonista e aparenta ter 17 anos. Sempre me pergunto onde ela consegue esconder os outros 17? Como ela faz isso? É uma pessoa linda em todos os sentidos! Na preparação dos "quitutes", era ela, a Andréia que me auxiliava na cozinha cortando os temperos. Tarefa que parece fácil, mas não é. Não da maneira como ela faz: tudo miudinho, em quadradinhos iguaizinhos, com uma perfeição de fazer inveja... Cebolas, tomates, pimentões coloridos, alhos e cheiro verde, tudo, aos poucos, picadinhos, separados e ao alcance das minhas mãos para o uso. Quando cheguei a Macapá, tentei fazer igual a ela. Tentativa em vão. Só então eu parei para pensar na Andréia, no seu ato de cortar os temperos e na importância de tudo isso. Quanta generosidade dessa menina. Pense comigo: Na hora em que as pessoas estão deliciando-se com o prato, ninguém fala: Nossa! Que delícia! Quem picou os temperos? Ou: Hum... Que temperos assimetricamente cortados! Ou quem sabe: Quem foi a "mãozinha de fada" que cortou tudo tão "bonitinho"? Entenderam onde quero chegar? A Andréia com sua preciosa ajuda, só não passou despercebida porque eu e a Cláudia fizemos questão de comentar sobre aquele ato, que considero, aliás, de amor. Não são muitas as pessoas que querem fazer aquilo que a maioria considera "menor" ou que no "servir dos pratos", não será lembrado e exaltado. Poucos são abnegados a esse ponto, ainda mais, sem haver obrigatoriedade. A Andreia poderia simplesmente dizer: Quer que eu lave ou seque as louças? Ou, quem sabe, não fazer nada, afinal, a colaboração nas festas é espontânea. Claro que se alguém não dá aquela "mãozinha" sempre tem um que olhe "torto", inclusive eu...*risos*, mas nada que afete as relações. No nosso dia a dia somos comumente cercados de pessoas que fazem coisas pequenas, mas que sem elas as grandes não aconteceriam. Que tal se passássemos a tratar essas pessoas com mais carinho pensando na grandeza do que elas fazem? Podemos fazer um voto de, a partir de hoje, darmos bom dia ou boa tarde para a zeladora do banco, do nosso trabalho... Podemos sorrir e cumprimentar o gari que está recolhendo nosso lixo e procurar agradecer com doçura cada vez que alguém nos fizer um favor, seja grande ou pequeno. Sei que isso parece "bobo", mas imagine como o mundo pode ser melhor com esses pequenos gestos. Como as refeições e a vida podem ter mais cor e sabor se observarmos as mãos preciosas que "cortam os temperos" no nosso dia-a-dia.