Moro desde 1999 no Amapá e visito com frequência meus familiares em Curitiba. Quando chego, logo tomo conta da cozinha e, consequentemente, das panelas. Adoro cozinhar para todos. Pra mim, lá ou aqui,os bons momentos devem ser sempre em volta da mesa, com comida saborosa e farta. Em fevereiro de 2016, em mais uma dessas viagens, estava eu preparando um almoço simples, daquelas comidinhas que fazemos com poucos ingredientes e temperos básicos, mas que entre pitadas de amor aqui e pitadas de carinho ali, acabam tendo sabores inesquecíveis: salada de alface com tomate, arroz soltinho, feijão com bastante cebola e alho e bisteca de porco frita. Tudo feito na hora para ser servido bem quentinho. Quase tudo pronto, carne temperada e óleo bem quente. Shiiiiiii.... Primeiro o barulho, depois o cheirinho de carne frita que rapidamente se espalhou pela casa trazendo ela, Luísa, minha sobrinha, então com 5 anos, que veio "atraída" pelo cheiro da fritura e certamente pela fome.
__ Hummm... Que cheirinho bom. O que você está fazendo, tia?
__ A tia está fazendo porquinho fritinho. Quer provar?
__ Ah, eu quero... mas????...Tia, esse porquinho morreu "sozinho", né?
Longa espera seguida de silêncio pra eu ajustar meus pensamentos.
__Hã?
Demorei para entender a pergunta. Quase tomei um susto e pensei: até você? Explico: Tenho vivido experiências com amigas que se tornaram vegetarianas ou veganas, umas por orientação médica, outras por puro modismo e algumas por conscientização mesmo, pois falam que os animaizinhos são mortos com requintes de crueldade, que o ser humano foi, digamos, "desenvolvido" para se alimentar exclusivamente de cereais e vegetais e que os derivados de animais fariam muito mal ao nosso organismo. Na verdade, todas elas falam muitas coisas e eu não consigo guardar tantas informações e talvez nem queira, sequer pesquiso para me aprofundar, porque sou... sou... conscientemente car-ní-vo-ra! Isso mesmo! Sou uma voraz comedora de carnes. Sou daquelas que "devora" bichinhos sem culpa alguma.
Então, voltando à minha amada sobrinha e entendendo a preocupação da mocinha, falei: claro que sim, meu bem! Pode comer tranquila que esse porquinho morreu bemmmmm sozinho. Luísa provou só um pedacinho, porque falei que já ia servir o almoço. E ela soltou um sonoro "Hummm... Que delícia!" A meu pedido, chamou o "povo" com sua voz infantil, porém requerendo urgência:" O almoço está pronto! Vamos, gente, agiliza!" Sentamo-nos à mesa. Silêncio total. Agradecimentos ao Papai do Céu e lá vem a voz de comando:" Atacar!" Luísa, sua irmã Lavínia de 3 anos, vovô, vovó, eu e a mamãe das preciosas almoçamos ao som de risadas, conversas e atualização das novidades, coisa de quem mora longe. Da travessa cheia do porquinho frito só sobrou o fundo vazio. Nunca esqueci do meu diálogo com minha pequena e todas as vezes que vou comer carne de porco, me vem sua vozinha na mente me perguntando: "mas ... esse porquinho morreu 'sozinho', né?" Talvez sinta um pouco de remorso por não ter falado a verdade, mas até hoje não sei se os porquinhos morrem "sozinhos" ou "acompanhados". Sempre dou um sorriso com a lembrança dessa preocupação, agradeço ao Papai do Céu e... atacar....! Bem se vê que minha fome e "bom gosto" superam (talvez) meu bom senso!


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